segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Eu quero

Minha sobrinha está entrando na fase na adolescência e tem agido de uma forma perturbadora para mim: tem falado, pensado e agido da mesma forma que eu fazia quando tinha 13, 14 anos. E perceber que boa parte do que ela tem idealizado não vai se concretizar me deixa agoniada. Queria poupá-la de tanta decepção, queria que ela não perdesse seu tempo em coisas (que mais tarde ela perceberá) inúteis. Sei que não é possível. Mesmo assim, escrevo este texto para dizer a outras "sobrinhas" que a vida é uma eterna decepção e adaptação às novas situações que se apresentam para nos fazer crescer. 

Como você se imagina
Como você se imagina

"Quando eu fizer 18 anos vou ter meu apartamento e morar com minhas amigas". Eu conto, ou vocês contam? A verdade é que com 18 anos nada vai mudar tão radicalmente na vida, a não ser a possibilidade de entrar em um motel, mesmo tendo carinha de criança. É que com 18 anos a vida não se parece muito diferente de quando temos 16 ou 17. Ainda estamos estudando; e se temos emprego, o salário é ínfimo a ponto de mal dar para pagar poucas compras no shopping e algumas baladas. As amigas também vão perceber que continuar morando com os pais é mais vantajoso, afinal quem não quer ter quarto, comida (wi-fi), Netflix e roupa lavada de graça?!

Aluguel é caro, supermercado é caro. E por mais que divida com as roommates contas de energia, gás, internet, TV a cabo, taxa de condomínio e o próprio aluguel, o salário não vai dar. Ou você paga as contas, ou dá festas. Ou você dá festas, ou compra roupas e maquiagens. Ou você aproveita o shopping, ou viaja com o namorado. Ou você sai com o namorado, ou paga a academia. Com 18 anos a única coisa que vai mudar mesmo, querendo ou não, é o metabolismo. Isso significa que pizza, refrigerante e miojo não serão as melhores escolhas do ponto de vista da circunferência da barriguinha. E é aquilo que acabei de escrever: ou come o que desejar, ou paga academia. 

Sair de casa custa caro e pede muita responsabilidade. Além disso, por mais que as amigas sejam legais, a convivência diária debaixo do mesmo teto, dividindo o mesmo banheiro, nem sempre é um mar de rosas, afinal cada uma tem seu jeitinho peculiar de levar a vida. Tem aquela que é mais certinha, tem a bagunceira, tem a porca e tem a total sem noção, que não vai respeitar o seu sono da beleza, colocando aquela música chata no último volume enquanto você tenta dormir (porque tem que madrugar para trabalhar no dia seguinte), ou simplesmente assistir a uma série na TV. "Ah! Mas a nossa casa terá regras". Mais uma vez, eu conto, ou vocês contam? Se hoje já é tão chato seguir as regras da casa onde moram pessoas que nos amam (pai, mãe, avós...), acredita mesmo que as amigas vão respeitar as regras de outras amigas?! Desculpem-me pelo choque de realidade, mas com o primeiro salário mal conseguirão pagar as suas saídas. Imaginem se sustentar. E não pensem que vão dividir apartamento com amigas. Como eu já disse, elas vão cair na real também e perceber que é mais vantajoso continuarem morando sob o teto dos pais.

Eu 2014 eu já falava um pouco sobre isso (clique aqui). É legar ter o próprio canto, as próprias regras, mas não é barato. E (acreditem!) trabalhar (apenas) para pagar contas é um saco. Melhor aguentar mais uns anos com os pais para conseguir se formar e, consequentemente, ter um emprego melhor, juntar uma boa grana e, aí sim, morar onde quiser, com quem quiser e decorar do seu jeito, e não do jeito que o seu salário permite. 

Como realmente será

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