segunda-feira, 21 de junho de 2021

Feche o ciclo

Quando criei o rascunho deste texto (exatamente com este título) pensei em falar um pouco sobre compostagem em meio urbano, o que estamos fazendo com o nosso lixo, apresentar alternativas para sermos minimamente ecorresponsáveis. Mas hoje, lendo o título me veio outra ideia: fechar o ciclo tem muito a ver com ciclos de vida; deixar algo ir para outra vir. E, confesso, estou praticando isso no momento. 

Há anos venho tentando fechar ciclos, mas, para uma virginiana de carteirinha, essa coisa não é tão fácil. Gostamos de rotina, de métodos, de ter o controle, então novas situações nos tiram da zona de conforto. Haja sessão de terapia! E foi exatamente após muitas sessões que decidi me abrir para o novo, deixando ir aquilo que já era mais do que passado. Fácil? Nadinha. Mas um belo dia é preciso abrir o armário, colocar tudo para fora, sobre a cama, no chão, esvaziar mesmo, fazer aquela limpeza em cada cantinho do armário, borrifar essência e, após muita seleção, recolocar algumas peças no lugar. Olhar atento! Essa calça já não fecha. Esse vestido tá rasgado no canto. Aquela blusa, se bobear, vai sozinha à padaria. Esse chinelo já tá bem gasto. Esse casaco...ok. Ele fica, mas primeiro vai para a lavanderia. 

Seleção feita, veja quanta coisa que já não servia mais e estava só ocupando espaço no seu armário. Assim também é com a vida. Um belo dia se desconecte do mundo, fique apenas com você mesma se ouvindo, se sentindo, tendo belas e péssimas recordações, gargalhando e chorando. No fim, veja o que mais arrancou gargalhadas, o que vale a pena ser lembrado mais e mais. O restante deixe ir. Foi importante, mas foi...

E a partir disso, com tanto espaço no armário, na vida, no coração, permita que novas experiências sejam vividas, que novas pessoas se acheguem (para um café). As tardes terão um novo significado, as noites não serão mais solitárias e as manhãs...ah! Essas começarão com um sorriso sem pressa. Porque fechar ciclos é isso: viver novas experiências sem roteiro, sem amarras, sem (tantos) medos.

Esse click foi em uma pousada em Lumiar exatamente
porque fechei um ciclo e me abri para viver outro.


domingo, 25 de abril de 2021

Solidão ou solitude?

Tem gente que adora uma casa cheia; que não perde uma festa, ainda que esteja cansada ou sem grana (ou os dois). Tem gente que se olhar para o lado e não vir ninguém fica mal, cai em deprê. Essa não sou eu. Adoro uma casa vazia; troco fácil uma festa de casamento por maratona de Grey's Anatomy jogada na cama; adoro o som do silêncio. Sim, o silêncio tem som e é encantador. Enquanto a maioria tem medo da solidão, eu flerto com ela o tempo todo. Mas não me sinto só, vazia. Talvez porque não seja solidão; seja solitude. 

Estar rodeada de pessoas, música alta, comida farta, bebida abundante não significa que se está com alguém. Assim como estar sozinha num lugar não significa que se está só. Certamente você já entendeu o que quero dizer. Não preciso entrar em casa e ligar a TV somente para fazer barulho. Não preciso sair só porque é sexta-feira à noite. Não preciso estar em todas as festinhas para me sentir querida. Estranhamente, às vezes, eu gosto quando me esquecem por um dia inteiro e meu telefone nem toca. O silêncio pode ser viciante. Mas, infelizmente, conheço muita gente que é viciada em multidão; a própria companhia não é suficiente; seus pensamentos devem ser tenebrosos demais para ficar em silêncio ouvindo-os. São pessoas que procuram fora o vazio (inquietante) que está dentro. Triste realidade! Porque um dia, todos nós, estaremos sozinhos. Melhor será nos acostumarmos com a nossa própria companhia, gostarmos de papear conosco agora para não surtarmos na velhice (ou na morte). 

Solidão: enquanto você está num churrasco com música alta e pessoas falando aos berros, tirando selfies e postando nas redes sociais olha em volta e se percebe só.

Solitude: numa sexta-feira à noite você chega do trabalho, olha o telefone e não tem mensagens. Respira feliz e pensa: estou só. 

Sexta-feira à noite e você sozinha em casa. Você decide se 
isso é solidão ou solitude. ;)


quarta-feira, 24 de março de 2021

COMO EU SOU DEPOIS DE VOCÊ

“Um dia vocês estão bem. De repente, você muda de ideia e vai embora. Só pra você saber, ela ia se casar com você.” (I was gonna marry you)

- Me perdoa. 

Foi a única coisa que conseguiu dizer naquela noite para ele e para suas duas cachorras, que ficariam órfãs ao amanhecer. Ela ia se casar com ele. Estavam bem. Mas, de repente, ele mudou de ideia e foi embora. Decidiu que não queria mais, que era muito novo e ainda precisava viver sua juventude solteiro.

Não era a primeira vez que ele desistia dela, deles. Em sete anos de namoro, ele desistiu três vezes, porém o tempo mais longo que ficaram separados foi de um mês - tempo suficiente para ele procurá-la e dizer que estava enganado e que não queria viver sem ela, que ela o completava. Mas naquela noite foi diferente. Ela sentiu que era definitivo. Foi quando se viu debruçada no parapeito do último andar do prédio onde morava com a mãe, seu irmão e mais dois sobrinhos. Onze andares separavam o céu da terra. Menos de seis horas separavam a vida da morte. Dessa vez, ela estava pronta para pular. 

E ela pulou. Dois anos depois, ela se jogou da Pedra Bonita - famosa pelos voos de asa delta. Seu salto foi no mesmo dia que ela desistiu de interromper a vida porque o homem que amava tinha decidido interromper os sonhos construídos juntos por sete anos. Seu salto foi muito maior; foi para comemorar a vida que tinha escolhido viver. E hoje, nesse 24 de março, faz exatamente 7 anos que ela escolheu viver. =)


Crescer, ser “gente grande”, como dizem por aí, não é nada fácil. A aula de biologia não ensina a superar um coração partido. A de português não mostra como ficar bem após receber um não do recrutador de uma empresa. Na verdade, tudo que nos ensinam na vida é que o tempo cura tudo. Mas quanto tempo leva uma cicatrização? Uma semana? Um mês? Um ano? Para mim, quatro anos (e com sessões de terapia).

Os fatos narrados são reais. E mais real ainda, por mais cinematográfica que possa parecer, é essa coisa que inventaram chamada vida de adulto.

Sou uma mulher de 30 e poucos anos, mas que até ontem não se sentia “gente grande”, mesmo morando sozinha, organizando e mantendo sem ajuda um apartamento e três animais. Não me vejo bebendo num bar sexta-feira à noite com colegas de trabalho discutindo se foi golpe ou não o impeachment da Dilma e se o Bolsonaro é retardado ou puramente mesquinho. Quero falar de coisas leves, mal de homens, mas bem de sexo. Contar as maravilhas e as derrotas que já tive por não analisar bem os dotes masculinos antes do momento fatale. Quero correr igual criança na rua e dar aquele abraço apertado numa amiga que não vejo há...dois dias. Por que não podemos correr fora de maratonas? Por que os cumprimentos têm de ser com sorrisos amarelos e dois beijinhos (ou nem isso)? Por que não podemos rir sem motivo na beira da praia e depois voltar para casa cantarolando e gargalhando sem parar? Me diz quem foi que inventou as regras do mundo adulto para eu ir lá e dizer umas boas verdades, dizer o quanto essa pessoa blasé é infeliz por não ser espontânea.

Não estamos em setembro, quando se comemora o MÊS DE VALORIZAÇÃO DA VIDA. Mas devemos viver como se todos os dias fossem #SetembroAmarelo. Eu escolhi viver. E foi a melhor escolha que podia ter feito porque...

"o suicídio é uma solução permanente para um problema que (certamente) é temporário".

Setembre-se! ;) Mas se a dor for muito forte ligue 188 - CVV (Centro de Valorização da Vida) 24 horas, 7 dias por semana, totalmente gratuito.