quinta-feira, 28 de outubro de 2021

De volta à vida

Era para ser apenas um tempinho longe da Redação, 14 dias trabalhando em casa. Nem daria para sentir falta dos colegas. Mas duas semanas viraram quase dois anos. Se no início o home office era caótico, apesar do alívio de não precisar se deslocar até a empresa diariamente, hoje já estamos acostumados. Como voltar à vida normal? A normalidade (de quem pôde se dar ao luxo de trabalhar sem sair de casa) agora é outra. Há mais de um ano o mundo está diferente, e eu não sei se quero voltar à vida antiga.

Com a orientação "se puder fica em casa" passamos a prestar mais atenção aos detalhes, a valorizar as horas, que passavam lentamente no início do confinamento. Preparar o próprio almoço e comer em casa aquela comida caseira, tão diferente (e mais barata) que a de restaurantes da Lapa carioca.

A pandemia veio a calhar para os menos sociáveis. Dizer Não a bares e festinhas, chás de bebê e casamentos deixou de ser malvisto para ser uma atitude de cuidado consigo e com o próximo. E agora? Com a vacinação caminhando (a passos de formiga, mas caminhando) e com o uso da máscara deixando de ser obrigatório, a vida lá fora vai voltando, tomando sua forma apressada, barulhenta, um tanto tumultuada novamente. 

Tomar um banho sem pressa e não precisar pensar muito na roupa, na maquiagem, nos sapatos que vão aguentar o peso de um dia inteiro de trabalho. Fazer aquela pausa num momento de estresse para ver sua série favorita, afinal, em casa, não tem que cumprir horário, mas metas, prazo de produção. Ter apenas a soleira da porta do quarto como distância para o trabalho é uma questão bastante tentadora. Assim como olhar para o lado e se deparar com seu animal de estimação te admirando feliz por você estar ali o dia inteiro só com ele (e o contrário ser verdadeiro também). 

Sério que essa não é a vida normal? Porque eu já me acostumei a ela, e ela a mim. Não sei se estou pronta para o mundo lá fora; não sei se estão prontos para ouvir de mim "Não quero ir" em lugar de "Prefiro não me expor ainda". De qualquer forma, acho que a máscara, por muito tempo, vai continuar escondendo o meu sorriso. É mais fácil assim. E confesso: adoraria conhecer mais pessoas com máscaras. O sorriso dos lábios pode ser apenas um sorriso social. Mas o sorriso dos olhos, ah! Ninguém consegue sorrir com os olhos se não for de verdade. 

Voltar à vida normal. Será que dá para escapar? Afinal, foi este normal que nos adoeceu.

"(...) E o futuro não é mais como era antigamente"



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