quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Quando o amor se transforma em amizade

Dizem que a fórmula de um casamento longo e feliz é a admiração que o casal tem um pelo outro, o carinho, a amizade. Porque beleza física, atração, se vão com o tempo, quando a idade se traduz em rugas, limitações por doenças e impotência sexual. Quem discorda? Eu. 

Não me atirem as pedras ainda. É claro que eu concordo com essa teoria, mas...isso não é amor, pelo menos não o que fez o casal começar uma relação. Isso é amor sim, mas fraternal. O mais lindo de todos, certamente, mas ainda assim, fraternal. Como diz Rita Lee, "amor sem sexo é amizade". E não tem o menor problema de um casamento ser sustentado assim, com amor fraternal. Estes sim são os mais belos, os que vemos e nos dão invejinha, desejando um dia termos uma pessoa ao lado para todo o sempre. 

Mas eu preciso me corrigir neste parágrafo. Quando disse "(...) isso não é amor, pelo menos não o que fez o casal começar uma relação", referindo-me ao amor fraternal, eu menti. Menti porque a relação mais linda que eu tive até agora começou com este sentimento puro. Éramos melhores amigos, víamos filmes sentados no chão da sala abraçados como namorados; dormíamos juntos numa cama de solteiro sem nada acontecer; nossas famílias já nos consideravam um casal, mesmo negando qualquer relação ou sentimento além da amizade. Até que...a amizade se transformou em amor. Não tinha como ser diferente. Não queríamos mais dizer "tchau", corríamos um para o outro para contar em primeira mão as boas notícias (e as tristes também). Ele era a minha pessoa. Eu era a Cristina dele (fãs de Grey's Anatomy entenderão). Era uma relação de companheirismo, cumplicidade, compreensão e, acima de tudo, diversão porque éramos amigos-namorados. Foi uma relação duradoura e de dar (literalmente) inveja em todos os nossos amigos que namoravam, porque eles desejavam ter um "Pato" e uma "Pata" ao lado. E quando a paixão esfriou (porque sim, esfria com o tempo) foi o amor fraternal que nos manteve unidos, bem, apaixonados ainda sem querer dizer "tchau". 

Só que Rita Lee está aí para nos lembrar que...sendo jovens precisamos viver como tal. E aquela amizade, que um dia havia se transformado em amor, estava passando por nova metamorfose: era o amor se transformando em amizade. Chegou a hora de dizer "tchau". Mas como dizer quando ainda existe tanto amor? Foi preciso; foi doloroso; foi difícil (TE AMO, MAS EU NÃO CONSIGO). Foi necessário muita determinação para soltarmos as mãos tendo a certeza de que o tempo nos mostraria que aquele amor não ia morrer nunca, mas já não era mais pra gente; era um amor fraternal. 

Haja sessão de terapia para entender as diferenças de um sentimento tão intenso! Nós, seres humanos, banalizamos tanto o amor, rotulamos ele de tal forma que temos dificuldade de perceber que existem várias formas de amar. Nem todas pedem que estejamos juntos. É possível amar e ainda assim dizer Adeus. Acho que esse é o amor que Nicette Bruno sente pelo seu (eterno) marido Paulo Goulart. "A última conversa que tivemos no hospital ele disse: viva muito, trabalhe como você gosta e não perca a sua alegria", disse Nicette em entrevista a Pedro Bial. "Não tenho a menor dúvida de que quando chegar a minha hora, ele estará lá me aguardando". Para quem não se lembra, Nicette Bruno e Paulo Goulart foram casados por 60 anos, até a morte do ator em 2014. Se ainda existia tesão, paixão eu não sei, mas que existia amor fraternal na relação deles, não tenho a menor dúvida.



                                                  Pensando em Você (Pimentas do Reino)