sexta-feira, 22 de maio de 2020

Quarentener: evolução das semanas

Na primeira semana, fomos para a janela aplaudir os profissionais que estão na linha de frente; cantamos com os vizinhos nas varandas; brincamos de adedonha e forca com os amigos e familiares por chamadas de vídeo. Estávamos de férias. Esse era o sentimento. 

Na segunda semana, começamos a bater panela nas janelas a cada pronunciamento presidencial. Fomos a vários shows sem sair de casa; as lives começaram a se sobrepor. Já não tínhamos mais planner para conciliar todas elas. Continuamos aplaudindo os profissionais, cantando com os vizinhos, orando coletivamente pelos doentes, batendo panela para o presidente.  

Na terceira semana, as lives de artistas consagrados tomaram conta do YouTube, agora de uma forma muito mais profissional, com direito a patrocinadores e QRCode para nos sentirmos úteis doando alguma quantia para "sabe Deus quem". O importante é apontar o celular para a televisão e fazer a doação, e postar a live nos status do Instagram, mostrando como a quarentena estava sendo aproveitada (em casa). Eu me senti forçada a comprar uma TV Smart para acompanhar todas as lives que me interessavam, já que a minha televisão antiga não tem wifi. Pronto! Agora sim estou apta para viver a quarentena integralmente como meus colegas.

Na quarta semana, acorda às 11h, começa a trabalhar (com pijama mesmo), pausa para os noticiários catastróficos da Europa, almoça lá pelas 16h; pega o computador, porque vai começar a aula de ginástica, que sua vizinha educadora física está dando via zoom (de graça), para manter o corpo se mexendo e não perder o contato com as pessoas. Hey! Para tudo porque está na hora da oração coletiva para os doentes! Opa! Está na hora dos aplausos. Ih! Mas está tendo pronunciamento presidencial. Bate panela com os pés em protesto e palmas em agradecimento aos médicos e enfermeiros. Tudo ao mesmo tempo. Pera! Vai começar a live Sandy & Júnior, com a participação do Xororó; tenho que cantar Evidências na janela. É o hino do Brasil, o panelaço pode esperar, e os aplausos...Ah! Três palmas e já tá legal. 

O segundo mês começa e um tédio toma conta. As panelas diminuem (porque as aparições dele já não são diárias). Os aplausos cessam. O momento de oração cai no esquecimento. Chamada de vídeo em grupo agora só quando é aniversário de alguém, para cantarmos Parabéns e ajudarmos a apagar as velinhas virtuais. Os cantores das sacadas perderam a voz. Até quando? 

Estamos há mais de 60 dias em isolamento social. Os dias parecem idênticos, mas as semanas...cada uma é muito diferente da outra. No início, a pandemia parecia nos trazer uma mensagem divina: DESACELEREM! Agora, dois meses depois, se ela está nos mandando uma mensagem ainda, eu fiquei surda, pois não a percebo; não para a humanidade, porque para mim sim, a mensagem continua sendo a mesma: "Desacelere! Aproveite o tempo em casa para fazer tudo que gostaria, mas usava a desculpa da "falta de tempo". Tenho me exercitado todos os dias. Brinco com minhas filhas de quatro patas por horas diariamente num apartamento de 50 metros quadrados. Cozinho (e lavo a louça) todos os dias. Delivery? Só quando bate desejo do hambúrguer vegetariano da Zezé Burguer. Reconectei meus laços com a espiritualidade, resgatando os estudos (e as pessoas) da casa espírita que eu frequentava antes de me mudar para o meu atual bairro. Passei a valorizar mais chamadas de vídeo, olho no olho, diariamente com a minha família. 

Eu não sei qual foi a mensagem que a pandemia levou para você, mas para mim ela trouxe essa: "Desacelere e se reconecte com o seu Eu divino e com quem importa de verdade no (seu) mundo".

No mínimo, teremos no Brasil mais um mês de isolamento social. Para quem cumpre a determinação do governo do seu Estado e só sai de casa quando é extremamente necessário, vai ser um mês longo. Estou há dois meses em casa, mas tenho a sensação que já se passaram seis. Então me diz, o que você tem feito para não surtar?

Amanhã tem mais "diário da pandemia" contando um pouco da minha rotina, para você ter certeza que não está só nessa noia. Porque virginiana é assim: preenche o planner até na quarentena. ;)   


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