segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

É hora de ir

Larissa trabalhava na maior editora do país. Começou como estagiária e foi crescendo aos poucos. Tornou-se editora-chefe de uma das principais revistas da empresa. Dedicara mais de uma década para aquele projeto.

Mas naquele ano tudo o que parecia perfeito na sua vida começou a mudar. Como em um castelo de cartas, seu relacionamento acabou e depois ela perdeu o emprego. A falência da editora teve repercussão nacional e internacional. Reflexo da crise econômica e política que o país atravessava.

Larissa se sentia sem chão, sem ar. Desiludida. De uma hora para outra, tudo o que ela acreditava virou pó. Mas ela era forte, e traçou um plano para sua sobrevivência.

Numa fria manhã de agosto, Larissa começou a mudança. Embalou pouco a pouco seus utensílios, guardou as roupas, separou algumas para dar. O apartamento para onde ia era menor, e ela precisava ser sucinta. Duas televisões não cabiam, então vendeu uma. E por aí foi. “Essa casa já não é mais minha. Esse estilo de vida já não é mais meu. Chegou a hora de desapegar”.

Não pediu ajuda para a família, muito menos para amigos. Primeiro porque a maioria deles era do trabalho e estava sofrendo igualmente com a demissão. Segundo porque ela sentia que precisava fazer aquilo sozinha, e provar para si mesma que era capaz.

Para cada caixa, uma lembrança. A de panelas fazia pensar em quando ela e o ex-marido cozinhavam. A de copos lembrava as várias festas que deu para amigos, onde bebiam até o dia clarear. E a de livros, ah, essa era uma das mais marcantes! Traziam pro seu coração todo o idealismo que ela carregava desde a infância: eram obras de poesia, política, sociologia e artes.

"Esses são tempos de encaixotar sonhos", ela pensou. E terminou de guardar os pertences, derramou algumas lágrimas, e colocou seu vestido preferido. Foi até o lugar que mais amava na cidade, a mureta da Urca. Gostava de sentar por lá, olhar pro horizonte, e pensar em que maravilha é a vida, mesmo com todos os problemas. Até escrevia alguns poemas, inspirada pela paisagem.

E assim ela fez. Escreveu um pouco... E pensou nos amigos, na família e nos amores. Acima de tudo, pensou em si mesma, no quanto era determinada, e uma joia rara. 

E lembrou de Chico.

“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia. Eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia”.

(Larissa preserva o otimismo acima de tudo. E acredita na energia do universo. O que é dela, será dela. Porque ela é: LARISSA).



Texto escrito por Carolina Pessôa, do blog Falando da vida.