segunda-feira, 30 de julho de 2018

Haja cu para tomar


Ana Júlia é aquele tipo de mulher bem resolvida. Até se importa com a opinião alheia, mas não deixa isso tirar sua paz. Sabe o que quer (ou, pelo menos, o que não quer). Tem pouco mais de 30 anos, trabalha, mora sozinha (ou melhor, com sua gata Wicca); ela é o tipo de mulher que não está nem aí se vai chegar tarde no trabalho e, por isso, terá um desconto no salário, ou se tem um encontro à noite com um carinha que conheceu recentemente, mas as unhas estão sem esmalte. Ela sai com cabelo molhado mesmo, se maquia no carro e raramente usa salto. Ana Júlia é independente e se orgulha do jeito que leva a vida. Mas parece que muita independência está confundindo a cabeça dos homens.

Solteira há três anos, ela ainda não encontrou a pessoa que a faça tirar os pés do chão, que lhe dê a tranquilidade de um amor junto com a leveza de uma paixão. Então, enquanto isso, ela conhece um aqui, outro ali. Em alguns ela até que investiria mais o seu tempo, não fosse por eles se revelarem tão (como dizer?) estranhos. 

Dois dos últimos nem eram assim tão especiais. No entanto, Ana Júlia resolveu dar uma chance, afinal, as amigas já estavam dizendo que ela andava muito exigente, colocando defeito em todos, até queeeee...um deles (Miguel) pediu o login e a senha do Netflix. Oi? Tinham se conhecido há apenas uma semana, trocaram uns beijos e ele já queria login e senha?!?!? Não por isso que ela deu um pé na bunda dele. O papo estava muito vazio, os encontros eram sem emoção, então ela resolveu que investiria no segundo, o André. 

Dois filhos, cineasta, viciado em trabalho (ou em dinheiro), inteligente...Um belo dia o rapaz envia uma mensagem (MEN-SA-GEM) para Ana Júlia:

- Minha esposa...
- Oi, marido.
- Me empresta R$300?
- Claro! Vem buscar - ela responde em tom de brincadeira.
- Sério! - Ele diz, percebendo que ela não tinha acreditado.
- E por que pedir a mim, e não ao seu irmão?
- Já tem dinheiro dele no rolo - André responde.

Por uma fração de segundo, Ana Júlia pensa em ser boazinha e emprestar. Afinal, ele lhe devolveria em 15 dias. Mas peraí! A sanidade dela volta e ela resolve então se fazer de boba.

- Lindinho, me convença que você não está me zoando.
- Essa lente (ele mostra a imagem do anúncio) custa isso no mercado. Encontrei um cara que está vendendo uma por R$ 3 mil e só faltam 300 reais para eu comprar.

Sem querer acreditar no que estava lendo, Ana Júlia continua, com a esperança dele mandar na próxima mensagem um "AHÁ! PEGADINHA DO MALANDRO".

- Tem certeza que você mandou essa mensagem para a pessoa certa?
- Sim.

E, então, Ana Júlia finaliza: Eu vou acreditar que não e a amizade continua, ok? Não temos intimidade para tanto.

É. Mais uma vez não era o homem da sua vida. Sorte dela não acreditar em príncipes encantados e estar mais para Fiona do que para Bela Adormecida. 
---

PS: o título desse texto surgiu em uma conversa de amigas sobre caras desse tipo. Uma delas mandou a seguinte frase: "Haja cu pra tomar!". Pronto! Virou texto porque sim, a história é real. 


sexta-feira, 27 de julho de 2018

Eu cresci e não houve outro jeito

Cinco meses. Esse foi o tempo que morei em outro Estado. Longe de casa, longe de tudo, cinco meses pareceram cinco décadas. Como cresci! E como cresci mais ainda quatro anos após meu retorno à cidade natal. 

"Espera só mais um pouco". Era o que eu ouvia e o que dizia quando a vontade de sair da casa dos pais era enorme para mim. "Falta pouco para o nosso apartamento". No entanto, o tão famoso "sim" de uma relação duradoura e feliz não veio. Parou na porta da igreja, deu meia volta e se perdeu no horizonte de um mundo novo. Só que eu também queria um mundo novo. Então, saí de casa, não para casar como tinha sido planejado, mas para viver, para crescer. E vivi. E cresci. 

Há quatro anos vi minha vida dar um duplo carpado e cair de cabeça no chão duro quando você se foi. Há quatro anos me vi morando numa cidade estranha com gente esquisita (mentira! só quis brincar com a música da Legião Urbana, que você me ensinou a gostar tanto). Há quatro anos me vi morando numa cidade diferente, dividindo apartamento com pessoas até então desconhecidas, longe da minha família, das minhas cachorras, dos meus amigos, do meu mundo. Só que esse momento de perturbação acabou e mesmo quando voltei à cidade natal, tendo toda minha vida de volta, só conseguia pensar no que eu não tinha: meu namorado que me deixou "na porta da igreja". 

Foi quando eu percebi que eu podia não ter o "pacote completo", como disse Lorelai Gilmore, mas eu tinha minha vida de volta: minha cama tão confortável, um apê inteiro só para mim, minhas cachorrinhas tão fofas, meus amigos por perto, meus sobrinhos logo ali, minha rua, meu restaurante favorito, minhas lembranças a cada esquina. Eu não tinha o "pacote completo", mas já estava dando tudo certo, pois eu estava em casa como tanto queria. Foi nesse momento, olhando para a praia num dia nublado, que eu cresci, mas foi somente hoje (quatro anos depois) que eu amadureci. 

Hoje sou eu quem poderia dizer "te amo, mas eu não consigo". Pela primeira vez eu entendi essa frase. E me perdoe se naquela época eu gritei e chorei como uma criança. É que eu era mesmo. Eu queria porque sim, mas hoje...Ah! hoje eu entendo que mesmo amando muito tudo que tivemos juntos, mesmo vendo um casal de velhinhos na rua e só conseguindo imaginar nós dois, mesmo querendo viver (com você) tudo aquilo que planejamos juntos, eu não consigo pelo simples fato de me sentir completa demais para dividir a minha vida com quem não tira mais meus pés do chão; eu não consigo por ter me transformado no que você sempre quis: uma pessoa independente, decidida, forte (e por você ter se transformado em tudo que eu nunca quis). Eu sou tudo o que eu sou porque você me amou. Eu cresci no amor que você me deu, e por isso eu serei eternamente grata. Obrigada.


segunda-feira, 16 de julho de 2018

Carioca na Paulista

Cariocas têm um preconceito com São Paulo. Comigo não seria diferente.

Passei muitos anos dizendo que não gostava de São Paulo. “Cidade cinza, poluída, suja... Odeio São Paulo”. A verdade é que eu nunca tinha estado em São Paulo.

Só que 2017 foi um ano que São Paulo aconteceu muito na minha vida por questões de trabalho. E aconteceu taaaanto que eu fui me apaixonando pela cidade. Para mim já era claro: “Eu quero morar em São Paulo.”

Assim que a oportunidade aconteceu, eu não pensei duas vezes. Deixei a vida para trás. Mas houve algo comigo que muitas vezes acontece nas nossas vidas: fechamento de ciclos. E eu sentia que o meu ciclo precisava ser fechado para que eu pudesse voltar a florescer. Foi então que...

Veio tudo junto: a formatura, o novo emprego, a saída da casa dos meus pais, a mudança de cidade, um novo estilo de Pole Dance, uma nova fase no meu namoro, uma nova casa para morar. E com tudo isso, veio também a liberdade, que era algo que gritava dentro de mim. A gente, às vezes, precisa se afastar para se descobrir, e isso para mim ficou muito claro. Tinham muitas influências sobre a minha vida que estavam me impedindo de ser a pessoa que eu queria ser.

- Por que você mudou para São Paulo? - perguntam sempre.

- PORQUE EU QUIS. É tão bom quando a gente escolhe; toma as rédeas da vida.

Morar sozinha foi muito natural para mim (por mais que minha mãe achasse que eu não fosse sobreviver). Eu fui com uma missão legal para o time onde trabalho hoje, de levar uma visão feminina (trabalho com quatro homens, o que, às vezes, me deixa louca, mas está sendo um lindo exercício de auto conhecimento).

Então, eu acho (não! Eu tenho certeza) que a palavra da vez é crescimento. Foram cinco meses até agora e com certeza muitas coisas incríveis ainda estão por vir. Claro que volto aqui para contar. ;)


Texto escrito por Giulia Apicelo, aquela administradora, blogueira, empreendedora e pole dancer maravilhosa que administra a WeGon.