segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Quando a gente sai da casa, mas a casa não sai da gente

Trocamos olhares, sorrisos singelos... Talvez ele não saiba, mas falou diretamente ao meu coração. Tocou em minha alma como sempre conseguiu, com palavras que sacodem, doem, com palavras que dizem: só depende de você. Quase me afoguei em lágrimas. Mas eu estava com minha boia; eu estava no Ceoe dentro da Confederação Espírita Francisco de Paula. Eu estava com Ubirajara Frontin. Mas quem é essa pessoa?

Bira é o presidente do Ceoe. E o que é isso? É o Centro de Educação e Orientação Espírita Jésus Gonçalves; é a minha segunda casa. É o centro espírita que me salvou de um suicídio. Já tem mais de 10 anos, mas me lembro bem da primeira vez que pisei lá, da pessoa que me socorreu, que me puxou do abismo sem nem mesmo saber disso. Essa pessoa não foi o Bira, mas ele, com seu jeito franco demais, sempre tocou em meu coração. A voz tranquila, mesmo nos momentos de "sacode", acalma, traz paz à alma. Ele também foi o norte de uma pessoa que viveu comigo por oito anos. Costumávamos dizer que ele seria o "padre" do nosso casamento. Não deu tempo. 

Talvez por isso o Bira mexa comigo. Na verdade, acho que mexe comigo porque ele é a personificação do Ceoe, aquele lugar mágico em minha vida, mas de onde eu tive que fugir para continuar viva, como uma criança que foge de casa (mesmo sem querer) porque apanha muito. 

Há quase um ano me mudei, saí do bairro onde cresci e todos pensam que foi somente para estar mais perto do trabalho, afinal levar mais de 2 horas todos os dias no ônibus para trabalhar não é nada agradável. No entanto, o motivo real da mudança foi por sobrevivência. A angústia de virar a esquina, de entrar em um restaurante, subir aquela rua, passear no shopping estava me consumindo além do que eu podia aguentar. E não tinha sertralina que segurasse a onda. Ir ao Ceoe para estudar a doutrina espírita, a doutrina que me proporcionava paz, estava cada vez mais difícil. O Ceoe estava me fazendo mais mal do que bem. Foi então que eu fugi. 

Mudei de bairro, fiz amigos, passei a frequentar novos lugares, ganhei tempo e qualidade de vida por levar somente alguns minutos no trajeto casa-trabalho. Só que não dá para a gente fugir do nosso destino, não é mesmo? E do nosso passado, dá? 

Levei mais de seis meses para procurar no novo bairro uma casa espírita. Selecionei duas indicadas por um amigo de longa data e eis que logo na primeira eu recebo uma mensagem um tanto subliminar: "Aquieta teu coração! Aqui também é a tua casa". Estava eu dentro de um novo centro, visitando-o pela primeira vez num "domingo qualquer" para assistir a palestra do dia. Ela seria ministrada por um integrante da Casa de Jésus (o próprio Ceoe). O famoso "estava escrito nas estrelas" começou a fazer sentido pra mim naquele momento. Percebi que fugir deu certo por um tempo. Afinal, é muito bom poder andar nas ruas, entrar em lojas, almoçar em restaurantes sem medo. Mas se a Terra é redonda, um dia, mesmo correndo tanto, sempre em frente, a gente volta ao ponto de partida: não porque regredimos, mas porque avançamos. 

O que esse texto tem a ver com o estilo deste blog? Tudo. É só você ler de novo, e de novo, e de novo até entender. Meus móveis não estão mais no mesmo lugar; tive, inclusive, que abrir mão de outros porque este apê é menor, mas aquele quadro que veio lá da outra casa ainda existe. Só coloquei em outra parede, agora com muito menos destaque. 

PS: morar sozinha não é fácil. A casa inteira depende de você. Tudo só estará em ordem se você fizer. Morar sozinha pode ser bem solitário às vezes. Por isso, quem escolhe não dividir o espaço precisa ser organizado (com a própria agenda e com a própria vida) para não surtar. Então, organize sua casa, mas comece pela casa mental, ou a física estará sempre um caos. ;)


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