sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Medo de altura

Ana Júlia sempre teve muito medo de altura e de qualquer coisa que fizesse ela tirar os pés do chão. Enquanto seus primos e primas brincavam com os tios de "briga de galo" na piscina, ela ficava de longe olhando, invejando aquelas crianças que, diferentemente dela, não tinham medo de ficar no alto, suspensas pelos ombros de seus tios para derrubar seus "adversários" na água. Estrelinha, cambalhota, subir em árvores ou muros, saltar de pequenos degraus... isso sempre lhe passou pela cabeça, mas ela nunca se arriscou. O medo era maior.

Toda sua infância, Ana Júlia morou em um apartamento térreo, o que, provavelmente, contribuiu para esse medo de lugares altos. Além do fato, claro, de seus pais, tias e avós sempre lhe dizerem: Não faz isso! Não pula! João, não brinca de luta assim com a sua irmã. Se cair de mau jeito vai quebrar o pescoço e morrer.

Mas por que tinha que ser assim? Por que ser livre tinha que ser fatal?

Ana Júlia cresceu com esse medo de altura que a impedia de saltar de uma cachoeira e de olhar para baixo quando estava na janela de seu quarto, no apartamento para onde ela se mudou com sua mãe e seu irmão mais velho. Era apenas o quarto andar, mas era alto. Muito alto para quem nunca tirara os pés do térreo.

Os anos se passaram, ela cresceu e seu medo de altura permanece. No entanto, Ana Júlia decidiu não dar mais bola para ele. Alugou um apê no último andar do prédio, de onde consegue ter uma vista incrível. Todas as noites, chega bem perto da balaustrada de sua varanda e inclina o corpo para frente. Quem vê pensa que ela vai se jogar. Mas não. Ela apenas está respirando o ar puro lá de cima, deixando a brisa tocar melhor em seu rosto com uma segurança que nunca teve.

Há alguns meses, a menina com medo de altura decidiu que estava na hora de crescer. Trocou o banquinho por uma escada alta na hora de trocar as lâmpadas queimadas da sua casa, subiu em árvores, em postes, até pose lá em cima ela fez. O próximo passo é saltar de uma cachoeira em Ibitipoca, ou, quem sabe, em Maringá. Talvez, antes disso, ela dê um salto maior na vida. Está com medo, mas não vai desistir do que lhe fascina e lhe persegue faz algum tempo. Tudo porque se descobriu encantada com isso e não será por ter chegado um pouquinho tarde que vai deixar de fazer o que tem de ser feito: tirar os dois pés do chão. 

-- "Mas e se ela cair?" 

** Pra que ela precisa de pés se tem asas para voar? **
 




6 comentários:

  1. Todo mundo deveria saber como é arriscar e tirar os dois pés do chão ♡ Belo texto 👏👏👏👏 Parabéns

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    1. Exatamente. Basta colocar um par de asas e se jogar. ;)

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  2. Todo mundo deveria saber como é arriscar e tirar os dois pés do chão ♡ Belo texto 👏👏👏👏 Parabéns

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Elbrick/DF
    Caracax!!! Adoro ler conteúdos q tem tanto sentimento.
    Se Ana Júlia é um estado físico, emocional, temporário ou permanente bem, todos temos um pouco dessa Ana Júlia...
    Que 2016 seja o ano pra todas se arriscarem a mudar pro aldar mais alto!
    Namastê.

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