domingo, 23 de agosto de 2015

Geração Rivotril

Faz uma semana que não posto aqui e nem é por falta de tempo. É algo pior: falta de ânimo. O lugar virtual que mais adoro negligenciado por mim. Só posso estar doente. Sim. É o caso. E aproveitando um evento importante que terá em setembro decidi abrir um pouco mais as portas desta casa para tocar num assunto muito delicado. Tão delicado que poucas pessoas têm coragem de falar e, com isso, as consequências são drásticas. Estou falando da depressão. Sim, ela é uma doença. E não; ela não é coisa de quem não tem uma louça para lavar, até porque eu tenho muita. O assunto é sério, tão grave que está sendo considerada a doença do século. Eu decidi falar sobre isso aqui porque pessoas com depressão tendem a ficar reclusas e para quem mora sozinho isso pode ser ainda pior, pois amigos e familiares, se não ficarem atentos, podem não perceber que tem alguém gritando por socorro. Essa falta de assistência pode ser fatal. Já ouvi muita gente dizer que ninguém morre de amor; não dando crédito para o sentimento, a dor do outro. Genteeeeee, depressão mata. Tem vários casos aí que, infelizmente, comprovam isso, pois quem sofre de depressão está margeando o suicídio. 



Como algumas pessoas daqui sabem (veja o post) eu faço terapia com uma psicóloga que não troco por nada. Não tinha um assunto grave que me levava até ela, mas várias pequenas questões que eu conseguia trabalhar melhor quando conversava com ela - uma pessoa que estudou para saber como ajudar outras (bem diferente de amigos que palpitam e, algumas vezes, até atrapalham). - Acho que todo mundo precisa de uma terapia em algum momento. Mas teve um evento na minha vida que mexeu muuuuuuuuuuito comigo. Mexeu tanto que me tirou o norte (e eu já não sabia como voltar pra casa). Casa bagunçada. Roupas na cama. Olhos inchados. Pão com mortadela 3x ao dia e nada mais. Eu não era eu e pra piorar isso estava afetando as minhas filhotas. Como apenas a psicóloga não estava sendo suficiente, fui parar num psiquiatra indicado por ela. Coisa de maluco? Pode ser, mas como não me considero louca, podemos classificar como "coisa de maluco TAMBÉM". 

Sempre tive receio de tomar remédio controlado, mas chega uma hora que é isso ou nada (e o nada pode ser um vazio muito desesperador). A farmacologia está aí pra isso, pra nos ajudar, então bora aproveitar.

Como eu falei lá em cima, quem sofre de depressão geralmente sofre calado, seja por vergonha de se expor, seja porque quem poderia ouvir não quer ouvir, ou quando ouve acha uma babaquice a pessoa fazer "tanto drama por nada". "Ainda isso?!" - É o que muitos escutam quando resolvem falar. O problema é que quando a doença não é tratada adequadamente vai piorando (como qualquer doença né?) e uma das consequências é o suicídio. 

Para conscientizar o mundo sobre uma coisa tão grave, no próximo mês teremos o Setembro Amarelo (o tal evento que citei no início do texto). Trata-se de um movimento de conscientização da população sobre o suicídio, que terá início esse ano, assim como já existe o Outubro Rosa, lembrando a prevenção do câncer de mama, e o Novembro Azul, feito para conscientizar sobre as doenças masculinas. Ele vai servir para mostrar a realidade sobre o suicídio: sabia que para mais de 90% dos casos existe prevenção? O Movimento consiste em iluminar ou sinalizar locais públicos com faixas ou símbolos amarelos. Aqui em casa, coincidentemente, vários móveis são amarelos. É uma cor que me traz tranquilidade por ser suave e, de quebra, destaca alguns pontos do cômodo. Mesmo assim, vou aderir ao Setembro Amarelo colocando na varanda um pano dessa cor e indo ao trabalho com uma camisa dessa cor. Dia 10 de setembro (6 dias antes do meu niver, pessoal. Podem mandar presentes e mensagens fofinhas) é comemorado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Que tal apoiarmos à causa saindo de casa com uma peça de roupa amarela? Mas não se limite a isso e muito menos a um dia do ano: preste mais atenção aos sinais que seus amigos dão. Uma simples postagem no Facebook pode estar carregada de sentimento, pode ser um pedido silencioso, porém desesperado, de socorro. Mas e se ele disser que está "Tudo ótimo"? Você conhece bem o seu amigo?

E só por curiosidade, para aqueles que ainda acham que depressão é besteira: existem pessoas com pré-disposição genética a isso. Ou seja, é uma doença sim e como qualquer outra precisa ser tratada com seriedade. Os familiares não podem ter medo de tocar no assunto, pois eles são os mais próximos do paciente que podem ajudar. Quando não tratada corretamente, outras doenças, como a síndrome do pânico, bipolaridade, podem aparecer, bagunçando ainda mais a vida do paciente e daqueles que convivem com ele. 

Essa semana uma pessoa da minha família veio aqui em casa e ao ver um dos remédio que estou tomando me perguntou: É você que está tomando o remédio XYZ? (detalhe: moro sozinha. É claro que só podia ser eu). Diante da minha afirmativa ela retrucou: "Quem te passou?". O psiquiatra, eu disse. E um silêncio tomou conta do quarto, porque ela tinha voltado para a cozinha, quando o ideal seria ela me perguntar o porquê de um psiquiatra, o porquê daquele remédio. Mas isso ainda é um assunto delicado demais, praticamente proibido entre as pessoas, por mais amigas que sejam.

Como diz um trecho da música do Lenine:

Será que é tempo que lhe falta pra perceber?
Será que temos esse tempo pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara…

Um comentário:

  1. Como já sabe, estou desde 2004 em tratamento psiquiátrico, psicológico e terapêutico. Tomo remédios tarja preta. E não é apenas um tipo não, são vários. Além da depressão, sou bipolar, tenho pânico de sair sozinha e só saio acompanhada pelo seu tio. Ele é o único em quem confio e com quem me sinto segura. Hoje ainda em tratamento, me acho um pouco melhor, pois agora já converso com outras pessoas, coisa que no início não fazia. Ficar sozinha, dentro da minha casa, não me incomoda. Agora sair sozinha sim. Não passo do meu portão.Não atendo a campainha e quando tinha telefone fixo, também não atendia. Dizem que é a doença do século, não posso afirmar isso, mais sei que é um problema muito sério e ruim. Escuto vozes o tempo todo e isso é muito irritante. Meu psiquiatra e psicoterapeuta, me disseram que se não cometi o suicídio, no auge da minha doença, foi porque, graças a Deus eu nunca perdi a consciência e como me identifico com a doutrina espírita, sei que suicídio não é solução e sim mais problemas. Mais costumo me machucar de outras formas, já fiquei careca, já me cortei várias vezes, etc...Resumindo, concordo quando diz que as pessoas não gostam de comentar o problema, por causa de serem consideradas loucas, mas o pior não é isso, o pior é quando as pessoas ao redor e a própria família, acham que é frescura e não doença. Eu tive apoio do seu tio e dos meus filhos, mas muitos não tem e aí é que a tudo vai para o brejo. Sei que jamais ficarei totalmente curada, porém aceito o tratamento e isso já é um grande avanço. Gostei muito de você ter comentado este assunto, aqui no seu blog, pois com certeza muitas pessoas irão se beneficiar sabendo que precisam procurar ajuda profissional o mais rápido possível. Beijos querida e fique com DEUS.

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