domingo, 4 de janeiro de 2015

Gente grande


Este é o Daruma. Dizem (e o amigo que me deu de presente disse também) que o Daruma é mágico. Ele atende um pedido seu. Você pinta um olho quando faz um pedido. Pinta o outro quando o pedido se realiza. Faz um ano que eu pintei o segundo olho do meu Daruma. Foi quando eu consegui realizar meu sonho de morar sozinha.

Faz um ano também que eu aprontei o que eu acho que foi o único barraco da minha vida. Um processo no banco que deveria levar 15 dias levou 3 meses. Três gerentes foram demitidos, muitos documentos tiveram que ser reemitidos porque perderam a validade. Fui tantas vezes ao banco que o segurança já não revistava mais a minha bolsa quando o detector apitava. Ele já sabia que era o fecho da minha carteira. 

- Eu quero saber quem é o responsável aqui.
- Sou eu, senhora. Mas a senhora não deveria estar aqui, esta área é proibida para clientes e…
- Eu não quero saber. Eu só saio daqui com meu contrato assinado. E se isso não acontecer eu vou perder o meu apartamento por causa da incompetência de vocês. Pode ter certeza que quando eu processar o banco, é você quem vai ser mandado embora.
- Senhora…
- Se vira. Já tô com meu advogado na linha.

O escritório deveria ter umas 30 pessoas e de repente todos começaram a se mover tentando mostrar algum serviço. Outros ficavam cochichando pra saber quem era a menininha que tava fazendo aquela bagunça toda. Eu esperei por 5 horas sentada na mesa do gerente geral. E assim meu contrato ficou pronto e eu pude me mudar.

Planejei durante um ano inteiro morar sozinha. Juntar dinheiro, comprar móveis, eletrodomésticos, acertar o orçamento doméstico. Lembro que fiquei seis meses monitorando o preço da TV e da cama que eu queria. O planejamento nem sempre corresponde à realidade e às vezes o dinheiro escorre pelo ralo sem que eu perceba. Nada que um aperta de cá, arrocha de lá não dê jeito.

Morar sozinha me fez amar ainda mais o sossego e a tranquilidade. Ninguém pra invadir a minha privacidade, não preciso trancar portas de quartos e banheiros, nem vestir roupas, se eu não quiser. Eu e Alice em nosso território. O lado ruim é que não tem ninguém pra fazer as coisas por você. Se não lavar a roupa, vai ter que ir trabalhar com roupa usada sim. Se não lavar a louça, uma colônia de bichos nojentos vai se apossar dos pratos dentro da pia. Se não pagar as contas, vai ficar com o nominho sujo no Serasa.

Morar sozinha é convidar quem você quiser pra ir te visitar. É poder dar PT no próprio chão e não ter ninguém pra te julgar por isso e valorizar mais a limpeza do vaso sanitário quando você está com a cabeça dentro dele botando o mundo inteiro pra fora. Morar sozinha é se acabar de chorar quando tá triste ou apenas vendo um filme qualquer e não precisar se preocupar se tem alguém vendo. É liberdade, (muita) responsabilidade, privacidade. Morar sozinha, porém, não é se isolar do mundo. Eu ainda conto com meu pai pra desentupir um vaso, ou com meu irmão pra fazer um furo na parede. Dependo da minha mãe ou da minha irmã pra conseguir um vale-night pra poder sair e a Alice ter com quem ficar. Um passo que eu dei com bastante segurança, mas volta e meia eu me pergunto se não foi um passo maior do que a capacidade das minhas pernas. Mas acho que é assim mesmo. Até porque, se eu parar de me preocupar, as coisas desandam. Aliás, não é só com o lance do apartamento. É uma preocupação que faz parte da vida de gente grande.

Se 2014 foi um ano ótimo com certeza a conquista do meu apartamento foi um dos fatores. Não troco, não vendo. Mentira, por  R$ 1 milhão eu pensaria no caso.

Texto escrito por Ericka Guimarães: a brasiliense que deu pitaco nessa casa.

Um comentário:

  1. Estou amando ver os textos escritos por suas amigas e também os seus... Vocês são muito talentosas e sabem como prender a atenção com suas experiências. Parabéns a todas vocês que conseguem com lápis e papel expor seus pensamentos de forma tão inteligente. Milhões de beijos.

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