segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Carta pro meu eu de 15 anos atrás

Querida Sincer,

você não vai acreditar, mas eu vim do futuro pra te acalmar. Sim, acredite! Eu sou você com 15 anos mais. E sim, você continua se chamando Sincer. Mudou de ideia quanto a trocar o nome quando fizesse 18 anos. Percebeu que não seria fácil fazer as pessoas mais chegadas te chamarem de Ágatha e nosso pai ficaria triste. Além disso, você não gosta mais de Ágatha. Se fosse pra trocar a certidão, optaria por um singelo Maria. Não estou mentindo.

Menina, tu vai chegar aos 30 com carinha de 18 e vai amar quando te pedirem a identidade pra comprovar que é maior de idade. Duvida? Mas pra isso é bom você continuar se besuntando de hidratante e maneirar no refrigerante.

Não, você ainda não é casada e nem tem filhos, mas chegou perto dos dois (não necessariamente nessa ordem). E não, não foi com o MBNS. Na verdade, olha como as coisas são: você vai perder contato com ele quando fizer 17 anos, se apaixonar perdidamente por mais dois garotos, quase casar com um e, quando estiver à beira do altar, o MBNS vai reaparecer (casado) e correr atrás de você. Pois é. O mundo dá voltas. Você vai estar linda, super bem resolvida e ele meio gordinho. Claro que você vai dar uma balançada, afinal terá sido o seu grande amor (sim, você vai ser gamada por ele por mais uns três anos e ele nem tchun), mas não vai ter uma recaída e vai colocá-lo em seu devido lugar. Ponto pra gata borralheira.

Cara! Tu ainda vai sofrer muito por amor (e pode incluir o MBNS também nessa lista de culpados). A boa notícia é que vai sobreviver (eu tô aqui pra comprovar isso) e ser muito feliz contigo mesma. Quando você pensar que o grande amor da sua vida apareceu, segura a onda. Ainda não é ele. Vai durar só uns dois anos, você vai ficar na fossa por uns quatro anos, e conhecer "O cara". Um menino, na verdade, mas que vai te ensinar tudo que eu sou hoje. A relação vai ser muito leve; tão gostosa a ponto de dar inveja em todas as suas amigas. Vocês serão grandes amigos e vão chegar bem perto de construir uma família. Lamento dizer, mas os planos do "casal perfeito" serão interrompidos quase sete anos depois, porque ele estará muito confuso, querendo viver a solteirice que deixou ainda muito novo por nós (sim, você é mais velha que ele quase três anos). Tá vendo! Sua mania de só sair com garotos mais velhos vai acabar depois que conhecer esse carinha. Não. Não vou dizer o nome. Você vai perceber na hora certa que é ele.

Você não tem ideia do quanto a sua vida mudou. Pensando bem, não muito. Você ainda mora no mesmo bairro (criou uma relação de amor por essa roça), continua acendendo incenso pra relaxar, se imagina indo ao altar levada pelo pai ao som de Kenny G, chora escondida no quarto quando tudo parece sem solução... E pode parar de fazer simpatias e promessas porque seus seios não vão crescer. Na verdade, até vão. Estou planejando um belo par de silicone pra nossa satisfação pessoal. Em compensação, aquela magreza se foi. Por fim, conseguiu engordar os quilinhos que tanto sonhou e se sentir o máximo. E tem mais: de bióloga marinha você se tornou jornalista. Não precisa me pedir desculpa. Hoje, você é funcionária pública. Não ganha bem, mas também não se estressa tanto. Esse seu atual trabalho te levou a morar em Brasília. Menina! Foram apenas cinco meses, mas tu odiou. A parte boa da mudança é que fez grandes amigos (uma delas foi a que me incentivou a escrever essa carta pra você), deixou de ser uma mulher dependente do namorado até pra pegar um ônibus e se tornou uma pessoa mais família.

Foi nessa época de Brasília que tu saiu da casa da mãe. Pois é. Quase 30 anos na cara e ainda morava com a mamãe. Agora tu mora num apê de três quartos. Tá vendo?! Demorou, mas saiu. Você vai perceber que fazer 18 anos não te dará a total independência que você imagina. Na boa? Nada vai mudar, a não ser entrar em motel, mesmo tendo essa carinha de criança. Desculpa pelo choque de realidade, mas com o seu primeiro salário você mal conseguirá pagar as suas saídas. Imagina se sustentar. E não pensa que vai dividir apartamento com amigas. Elas vão cair na real também e perceber que é mais vantajoso continuar morando sob o teto dos pais.

Me adianto em te pedir desculpa. Você tinha razão: vida de casada não é fácil. Em minha defesa digo que você queria (e precisava) experenciar isso. Pois é! Você está morando com o namorado. Pode ficar de boca aberta. 

Por falar em família, sabe a cachorrinha Layla que você acabou de ganhar da nossa amiga Rê Petti (sim, a Rê continua firme e forte do seu lado e te deu um afilhado lindo chamado Gabriel)? Ela continua aqui. Hoje tem 15 anos, os pêlos grisalhos, mas com a vitalidade de um filhote. É a princesinha da família. Você a ama como filha. E há dois anos você adotou outra poodle que foi encontrada na rua toda machucada. Se chama Nina. Seu novo amor.

Ah! Só pra você saber: são 9h da manhã de uma quinta-feira e estou usando a internet pra te escrever essa carta. Pois é. No futuro você não precisará esperar o fim de semana pra disputar o computador com o seu irmão (que por sinal está casado e com três filhos). Tudo está muito mais barato e acessível. Você tem até o seu próprio notebook e um celular com internet rápida. A onda do momento é o WhatsApp (algo semelhante ao torpedo, porém pela internet e, consequentemente, mais rápido). Com isso, ligação virou prova de amor, querida.

Agora um conselho sério: seja menos séria! Pare de planejar e apenas viva. Acho que pelas 500 linhas dessa carta já deu pra perceber que não adianta fazer muitos planos, porque a vida segue o curso que tem que seguir né?! Então, aceite aquela viagem de última hora, não seja chata (sinceridade demais não é qualidade) e vá ao Rock in Rio 2011 (a Shakira estará lá e você vai se arrepender se não for). Seja menos (auto) crítica e não se prenda a marcas de roupas. Daqui a 15 anos você vai descobrir que a mesma fábrica que faz uma calça pra Levi's faz também pra C&A. Tá pagando mais caro pela etiqueta, sua boba. Resumindo: curta a vida adoidado! Mas sem drogas. Me orgulho de ter 30 sem conhecer a onda de um baseado.

Cara, eu poderia te adiantar mais um monte de coisas, mas acho que isso pode alterar o curso da minha vida. Ou seria da sua? Da nossa? Ah! Foda-se! Já tô confusa. Você entendeu né?! Só mais uma coisa: a relação com a mãe vai melhorar. Vocês serão grandes amigas, mas ela não vai parar de fumar. Nem esquenta mais com isso e seja mais tolerante. Você vai perceber que nada acontece por acaso e tudo tem um tempo certo. Então, apenas viva! Você tá indo bem.

beijocas

Cissa

PS: esse apelido dado pelas suas primas baianas pegou.

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Pelo que vi, essa ideia faz parte de uma blogagem coletiva do Rotaroots e surgiu no Hypenessconquistando a galera, que tá usando a criatividade adoidado nas suas cartas. Eu conheci através de uma amiga brasiliense e me amarrei. Dá um confere aqui. 

5 comentários:

  1. Bruxa, vc tem talento hein?! Me lembrou os textos de thalita rebouças, leve, atual, dinâmico...show !

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  2. Parabéns, querida. Fico muito feliz em saber que tenho uma sobrinha inteligente, talentosa e linda... Seu texto ficou sensacional... Dinâmico e tão gostoso de ler que ao final fiquei desejando que tivesse mais... Amei! Beijos no coração e fique com DEUS.

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