segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Você está vivendo a vida que imaginou?

Você leva jeito para veterinária. Vou te levar ao altar com esta música ao fundo. Seus filhos vão ser mais educados que soldado no quartel. Você tem que fazer curso de comissária de bordo antes da faculdade. A filha dela vai falar abuelita antes de vovó. 

Frases soltas, ditas por pessoas diferentes, em momentos diferentes a uma mesma pessoa, ou melhor, a uma criança. E marcaram tanto que o momento em que cada uma foi dita parece que foi ontem tamanha a força da lembrança. "Vou te levar ao altar com esta música ao fundo" fez aquela menina de 7 anos de idade acreditar que casar era a melhor coisa do mundo, um momento mágico. Mas como esse momento não chegou a ela, por anos se sentiu em débito com seu pai cada vez que ouvia Dying Young ou Esther. Ela não se tornou comissária de bordo e nem teve filhos para ensinar dois idiomas ao mesmo tempo e educá-los nos moldes da Super Nanny. 

Totalmente diferente do que imaginaram para aquela menina, ela não quer se casar. Mas a lembrança daquele domingo na sala de casa, dançando sobre os pés de seu pai enquanto tocava Kenny G, a faz sonhar com o momento que ele sonhou levando-a até o altar. A imagem da Duda hablando abuelita enquanto chama sua avó para brincar martela em sua cabeça a cada reunião de família, ainda que ela esteja bem sem precisar se preocupar com a renovação da matrícula escolar. 

Ela ama animais, mas morre de medo de agulhas, então o consultório de veterinária será apenas para levar suas cachorras, não para trabalhar, diferentemente do que todos sonharam para aquela menina de 7 anos. Porque, na verdade, ela queria ser psicóloga. Ela não queria uma casa cheia; queria ter um apartamento só seu, dividindo apenas com a sua cachorra. Ela queria ter um emprego que permitisse flexibilidade de horário, mas garantia certa de salário. Ela queria ter tempo para sonhar e viajar nos seus sonhos sem bagunçar a vida de outra pessoa. Ela queria a liberdade de um amor, de uma vida, sem amarras. Ela queria viver sonhos bem diferentes do que sonharam para ela, mas levou anos para descobrir isso.

"Você sabe quem você é? Sabe o que aconteceu com você? Você quer viver assim?" (1)

Você está vivendo a vida que imaginou? Ou a vida que imaginaram para você?



(1) By Cristina Yang (Grey's Anatomy)

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Quando o amor se transforma em amizade

Dizem que a fórmula de um casamento longo e feliz é a admiração que o casal tem um pelo outro, o carinho, a amizade. Porque beleza física, atração, se vão com o tempo, quando a idade se traduz em rugas, limitações por doenças e impotência sexual. Quem discorda? Eu. 

Não me atirem as pedras ainda. É claro que eu concordo com essa teoria, mas...isso não é amor, pelo menos não o que fez o casal começar uma relação. Isso é amor sim, mas fraternal. O mais lindo de todos, certamente, mas ainda assim, fraternal. Como diz Rita Lee, "amor sem sexo é amizade". E não tem o menor problema de um casamento ser sustentado assim, com amor fraternal. Estes sim são os mais belos, os que vemos e nos dão invejinha, desejando um dia termos uma pessoa ao lado para todo o sempre. 

Mas eu preciso me corrigir neste parágrafo. Quando disse "(...) isso não é amor, pelo menos não o que fez o casal começar uma relação", referindo-me ao amor fraternal, eu menti. Menti porque a relação mais linda que eu tive até agora começou com este sentimento puro. Éramos melhores amigos, víamos filmes sentados no chão da sala abraçados como namorados; dormíamos juntos numa cama de solteiro sem nada acontecer; nossas famílias já nos consideravam um casal, mesmo negando qualquer relação ou sentimento além da amizade. Até que...a amizade se transformou em amor. Não tinha como ser diferente. Não queríamos mais dizer "tchau", corríamos um para o outro para contar em primeira mão as boas notícias (e as tristes também). Ele era a minha pessoa. Eu era a Cristina dele (fãs de Grey's Anatomy entenderão). Era uma relação de companheirismo, cumplicidade, compreensão e, acima de tudo, diversão porque éramos amigos-namorados. Foi uma relação duradoura e de dar (literalmente) inveja em todos os nossos amigos que namoravam, porque eles desejavam ter um "Pato" e uma "Pata" ao lado. E quando a paixão esfriou (porque sim, esfria com o tempo) foi o amor fraternal que nos manteve unidos, bem, apaixonados ainda sem querer dizer "tchau". 

Só que Rita Lee está aí para nos lembrar que...sendo jovens precisamos viver como tal. E aquela amizade, que um dia havia se transformado em amor, estava passando por nova metamorfose: era o amor se transformando em amizade. Chegou a hora de dizer "tchau". Mas como dizer quando ainda existe tanto amor? Foi preciso; foi doloroso; foi difícil (TE AMO, MAS EU NÃO CONSIGO). Foi necessário muita determinação para soltarmos as mãos tendo a certeza de que o tempo nos mostraria que aquele amor não ia morrer nunca, mas já não era mais pra gente; era um amor fraternal. 

Haja sessão de terapia para entender as diferenças de um sentimento tão intenso! Nós, seres humanos, banalizamos tanto o amor, rotulamos ele de tal forma que temos dificuldade de perceber que existem várias formas de amar. Nem todas pedem que estejamos juntos. É possível amar e ainda assim dizer Adeus. Acho que esse é o amor que Nicette Bruno sente pelo seu (eterno) marido Paulo Goulart. "A última conversa que tivemos no hospital ele disse: viva muito, trabalhe como você gosta e não perca a sua alegria", disse Nicette em entrevista a Pedro Bial. "Não tenho a menor dúvida de que quando chegar a minha hora, ele estará lá me aguardando". Para quem não se lembra, Nicette Bruno e Paulo Goulart foram casados por 60 anos, até a morte do ator em 2014. Se ainda existia tesão, paixão eu não sei, mas que existia amor fraternal na relação deles, não tenho a menor dúvida.



                                                  Pensando em Você (Pimentas do Reino)


segunda-feira, 20 de julho de 2020

Cama de casal...sem casal

Há cerca de uma semana um amigo, recém separado, estava conversando comigo sobre casamento. Eu lhe disse que não quero me casar, mas adoraria ter a festa, a cerimônia. "Posso ficar só com a parte boa, onde a história termina com o 'E foram felizes para sempre'? Depois da festa pode cada um ir para sua casa?", eu perguntei. Ele estranhou, mas percebi um brilho nos olhos.

Certa vez, não faz muito tempo, ouvi (não lembro onde e muito menos de quem) que a cama de casal foi uma invenção maravilhosa. O erro foi quando resolvemos colocar duas pessoas para dormirem nela. Achei isso fantástico. E sei que muita gente vai ficar horrorizada com o primeiro e este segundo parágrafos, mas também sei que, lá no fundo, concordam comigo, assim como esse amigo que, certamente saiu daqui de casa com um outro olhar para o casamento.

Sou filha de pais separados; eu tinha apenas 9 anos quando isso aconteceu, então para mim é super natural ter duas casas e pais que nunca brigam. E já está mais do que provado que a convivência transforma tudo: a amizade em amor, e o amor em amizade. Eu já passei por isso, já percorri os dois sentidos desta transformação de sentimento. E não tem problema algum. Problema tem quando nos forçamos a acreditar que casar, dividir banheiro, cama, ter filhos é regra para ser feliz. Eu descobri a minha felicidade numa cama de casal vazia. Não é que eu não goste de namorar, dormir de conchinha. Eu adoro (inclusive a aba A DONA DA CASA diz exatamente isso). Sou uma ogra carinhosa, alguns dizem. Mas eu amo o meu espaço, eu amo a minha própria companhia. Eu adoro sentir saudade e depois ficar grudada para matar a saudade de dias sem ver o outro. O gostoso de um relacionamento é a novidade, o frio na barriga, o coração acelerado. Casadas e casados, quantos de vocês ainda sentem isso? 

Quando a jogadora de basquete Hortência anunciou seu casamento, mas que moraria em outra casa o Brasil estranhou. Ok, anos 90, século passado. Hoje isso pode ser normal. Eu continuo querendo o vestido de noiva (com bolsos da Morena Andrade Atelier), a cerimônia (longe de igrejas) e a festa de casamento bem informal para celebrar a união. Eu continuo querendo o Felizes para Sempre. A diferença é que eu resolvi admitir para mim que esse Felizes para Sempre não tem a menor chance na minha vida se eu tiver que dividir o meu espaço, a minha cama 24x7. Todo ser humano precisa de espaço, precisa de um tempo consigo somente. Poucos admitem. Muitos casamentos sobrevivem. Eu prefiro um casamento que vive; prefiro viver uma vida a dois cheia de emoção, de frio na barriga, coração acelerado e saudade sendo matada num dia qualquer. Muita loucura? Muita modernidade? Diz aí!

OBS: texto antigo, escrito lá em 2015, mas sempre atual. Clica aqui para (re)ler!